Hoje.O dia em que não estou morrendo.
O dia em que cada pedaço desse cadáver que ainda insistem em identificar como corpo ainda pulsa num cadente suave. O único e triste indício de vida.
Algo que chamam de cor aparece em minha face, um róseo inicialmente mórbido e escasso que com dificuldade vai se espalhando. Em fases crescentes a intensidade do vermelho se manifesta até sua mais pura e verdadeira forma, falsamente expressão de vida, expressamente momento de raiva.
Pequenos movimentos involuntários e quase imperceptíveis mas frequentes que não param de acontecer por toda essa carcaça fétida, carcaça que cobre e ainda se mantém funcionando por pura inércia e infelicidade do destino. Um coração que trabalha no automático para...para...para...para... parar.
É por inércia também que as pernas locomovem esse fardo cansado de sua existência indiferente e dispensável, como o que há dentro, carregam o peso daquilo que por ironia ainda vive.
Camada por camada sobrevive num absurdo que é essa resistência gerada do nada. Sim, pois força há muito me falta. Só não para mover esse músculo abaixo dos reservatórios de ar presentes nessa caixa vazia que inflam e desinflam constantemente.
Então o vermelho some, assim como o ar. Não aos poucos como ocorrem os batimentos mas bruscamente como deveriam assim cessar. Foi um momento, um susto, umas palavras, uma confirmação penosa, um estrondo, um golpe que não atingiu (infelizmente) esse... corpo. Certeiro na alma.
Disse-me que eu havia morrido.
Você me disse. Quem não poderia ter dito, em alto e claro, muito alto, bem mais alto que claro, tão alto que fez-se claro.
"Você morreu para mim. E faz tempo".
Tempo. Tão lento passaram ecoando essas (duras) palavras em meu vago corpo fatigado repetidas vezes, como num vale alto o eco que percorreu-me por todo esse tempo. Matou-me de fato, enfim.
Hoje. O dia em que finalmente morri.
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