Destino do Inquieto:
o comer do conhecimento
o vômito da angústia
o buscar do remédio
o veneno alcançado
na mesa
lê, vê, crê, relê, revê, recrê
rerelê, rerevê, não crê
ah, a ignorância!
Saudades do cotidiano constante...
Inconstância do Inquieto
59.
Ninguém, amor
Me fez tão bem assim, a ponto de ser tão ruim
A dor de ter um fim
Alta é como ouço a lembrança dos momentos em que a ti recorri quando precisei ouvir um monte de palavras ou apenas algumas. Somente uma ou nenhuma, o som do respirar. É duro notar que antes samba agora é choro.
É o que faço toda vez que nas pequenas coisas encontro a ti. E não são em esparsos momentos, constantes de lágrimas e lamentos a que me resumi. Todo minuto eu lembro de nós e esqueço de mim.
É duro não saber o que sentes. Estás indiferente, melhor? Não sei o que seria pior. Talvez se sentisses a dor que me persegue em cada lugar que vou e já passei contigo, se revisses tão claramente as pequenas coisas que eu fiz, como revejo as tuas, e se sentisses. Como é difícil ainda te sentir.
O cheiro, que não acaba, não muda, é igual em tudo, em todos, todos têm teu perfume. E eu.
Como posso esquecer algo que insiste em lembrar-se vivo e manter-se aqui comigo, mesmo estando longe? Como posso ao menos tentar, se ao fechar os olhos ainda enxergo, se ao prender o ar ouço um coração, que ainda bate por piedade de um corpo falido, esquecido, largado em estado deplorável. E bate constante forte de esperança, pintada a cada lembrança. Como se adiantasse. Isso de lembrar.
Se pudesse rastejaria mais, imunda já estou. Diante dos teus pés imploro, mas... o que há de se implorar?
Amor, eras fiel, eras meu mais intenso sentimento, o único concreto e palpável, que embora não mais o toque, ainda sinto. Talvez não haja mais o que pedir a alguém que me deu tudo o que tive e tudo aquilo o que nunca mais terei. Tiraste-me a vida concedendo-me-a. Agora que partiste, ainda a tenho? O que me resta de vivo é a tua lembrança, talvez por isso a frequência, caso contrário a respiração cessa e a mente para de reproduzir aqueles tão intensos momentos. Ah, como seria melhor.
Pensei ser para sempre e não me engano nessa parte que é a que me corrói a cada um daqueles momentos de remomentos. És para sempre, sendo que na dor meu amor não morre, sobrevive e se alimenta do que me alimento, tirando-me o sono, a vida e deixando em troca o sofrimento. Que não morre, que não morre, que não morre. Por mais que eu implore.
Por mais que implores, não hei de esquecer-te e não mais me peças essa tão impossível tarefa.
Morreria ao te esquecer.
58.
Levo à boca seca uma colherada do que me mandaram tomar. Disseram-me ser bom. Pra'quela gripe minha. Engulo, resistente, havia cautela ao provar da prudência. Curioso(a). textura. Aperto os olhos, meu nariz retorce e abro a boca numa tentativa de anular aquele seu gosto amargo com o inssabor do vento. Não pensei ser tão ruim. Havia mais, um coquetel. Apoio a cabeça nas mãos, os cotovelos sobre a mesa repousam, esfrego o rosto e respiro fundo, entre tosses. Não estava com meu vidrinho de coragem e aquela gosma estranha que tomei anteriormente me embaçava a visão. Olho para todos, teria que escolher. Discrição, engenho, ponderação, nenhum deles em cápsulas. Mas eis que... o juízo. Era um comprimido de cor engraçada, indefinida, dependendo da situação de luz, transformava. Chamou-me a atenção portanto foi o próximo. Aleatoriedade. Além de ser mais fácil de engolir. Não teria mesmo como classificá-los em ordem de importância, se é que havia. Disseram-me que eu já o havia tomado. Não me lembro. Depois de tentar, à seco, dei-me conta de que saberia muito bem se já o tivesse feito. Que azedume! Água, água!
Argh. Prefiro conviver com os espirros a passar a vida dosando, na medida do que (não) preciso, cada uma dessas drogas.
Ou não.
Está fazendo efeito.
Argh. Prefiro conviver com os espirros a passar a vida dosando, na medida do que (não) preciso, cada uma dessas drogas.
Ou não.
Está fazendo efeito.
57.
quero em totalidade
quero em absoluto
quero em absoluto
quero
quero muito
quero tanto
quero a ponto
de querer o retorno
56.
Nessas idas tristes,
Volta e meia traz-me o som do caminho
Uma nota de meu canto falho
Sussurrando a letra às árvores
Declamando os versos aos pássaros
Desenhando um esboço nos céus
Faço o retorno alegre.
De volta a ida, pra mais uma vi(n)da.
Volta e meia traz-me o som do caminho
Uma nota de meu canto falho
Sussurrando a letra às árvores
Declamando os versos aos pássaros
Desenhando um esboço nos céus
Faço o retorno alegre.
De volta a ida, pra mais uma vi(n)da.
55.
Fui o pior de todos ao te deixar (Nunca foste cruel)
Que nada fizeste senão me amar (Em meu amor recolho o ódio)
E à minha cabeça confusa recolho (Dessa incerteza mas me vem a saudade)
As mãos que um dia abraçaram (Um arrepio no corpo)
Teu corpo (Tu que me amaste loucamente)
Sinto falta (E eu também)
De tocar-te, minha amante (Gostaria de sentir-te de novo)
Mas a mulher em ti me imped(iu)e (Foste, meu homem, embora com o sopro)
Esse mundo novo... (Tão grande (.) é o sufoco)
Não mereço tuas lágrimas (Esse vento que seca as gotas)
Por isso seca essa fonte (Em meu rosto)
Sou um canalha (Meu maior amor)
À noite te acordo p'ra saber como dormes (Hoje não dormi)
Estás bem? Tens superado? (De pensar em tudo, doeu e senti)
O que comes? (Amarga)
Estaria feliz se um dia esquecesses de mim (A vida sem alguém)
Mas não quero, sem ti (Queria saber)
Ou quero, não assim. Talvez assim (O que queres de mim)
Não sei. Se volto. Nunca soube. De nada (Só me ouviste e nada respondeste)
E na incerteza, como for, o meu amor. (No teu silêncio tento ouvir o sussurro)
É que te amo, sem saber como o fazer. (ainda te amo e não sei mais o que dizer)
Faz de mim o que sou pra ti
Que nada fizeste senão me amar (Em meu amor recolho o ódio)
E à minha cabeça confusa recolho (Dessa incerteza mas me vem a saudade)
As mãos que um dia abraçaram (Um arrepio no corpo)
Teu corpo (Tu que me amaste loucamente)
Sinto falta (E eu também)
De tocar-te, minha amante (Gostaria de sentir-te de novo)
Mas a mulher em ti me imped(iu)e (Foste, meu homem, embora com o sopro)
Esse mundo novo... (Tão grande (.) é o sufoco)
Não mereço tuas lágrimas (Esse vento que seca as gotas)
Por isso seca essa fonte (Em meu rosto)
Sou um canalha (Meu maior amor)
À noite te acordo p'ra saber como dormes (Hoje não dormi)
Estás bem? Tens superado? (De pensar em tudo, doeu e senti)
O que comes? (Amarga)
Estaria feliz se um dia esquecesses de mim (A vida sem alguém)
Mas não quero, sem ti (Queria saber)
Ou quero, não assim. Talvez assim (O que queres de mim)
Não sei. Se volto. Nunca soube. De nada (Só me ouviste e nada respondeste)
E na incerteza, como for, o meu amor. (No teu silêncio tento ouvir o sussurro)
É que te amo, sem saber como o fazer. (ainda te amo e não sei mais o que dizer)
Faz de mim o que sou pra ti
54.
Na angústia
Sob(re)
Vivo
Minha pele
A explosão do existir
Que não entende porque está em mim
Às vezes
Sinto
Que não
Sinto
Por que sentir
?
Por que existir
?
Eus calados, internos, que agora gritam a explicação em outra
Língua
Sabores, de cada esquina, cada dia dessa vida que passa e diminuem
Sensações que preciso (preciso?) provar
E ao morrer acabam (acabam?) e o gosto final que eu não sei
Se amarga a Vida, doce a Morte? (amarga também?)
Sou bem ser vida e passo fome
Nada sacia o ser que de inanição do saber
Olha para os c(eus), em busca de gotas que não caem
Talvez fosse ruim para nós, para mim
Esse dilúvio que todos buscam em vida
Não é a fome de viver. É a sede de saber o morrer.
depois de Kierkegaard. Resultado de uma angústia própria.
Sob(re)
Vivo
Minha pele
A explosão do existir
Que não entende porque está em mim
Às vezes
Sinto
Que não
Sinto
Por que sentir
?
Por que existir
?
Eus calados, internos, que agora gritam a explicação em outra
Língua
Sabores, de cada esquina, cada dia dessa vida que passa e diminuem
Sensações que preciso (preciso?) provar
E ao morrer acabam (acabam?) e o gosto final que eu não sei
Se amarga a Vida, doce a Morte? (amarga também?)
Sou bem ser vida e passo fome
Nada sacia o ser que de inanição do saber
Olha para os c(eus), em busca de gotas que não caem
Talvez fosse ruim para nós, para mim
Esse dilúvio que todos buscam em vida
Não é a fome de viver. É a sede de saber o morrer.
depois de Kierkegaard. Resultado de uma angústia própria.
53.
A recompensa será dada no dia em que as forças perto de acabar, irão ceder, ao que quanto mais cresce mais atormenta esse ser de injúrias, o fraco que em mim não deixo transparecer.
Lamentos que não mais deveriam existir persistem num abismo sem fim, poço de dois lados, um céu sem limites que na terra continuo a olhar pra baixo. Abaixo de mim, só eu.
E a cabeça ameaça a erguer, os braços tendem a esticar, é difícil voar.
Difícil dizer também o que uma palavra /causa morte/ de fraquezas.
Se continuar assim a recompensa não chega.
Dói fingir o levantar de um olhar que só sabe o caminho para o peito.
52.
E posto que venho de algo que /não há/ o que dizer
sobre mim
há só pó e dó ré(ge) mi (nh'alma)
o silêncio
que há onde não tem
fim
não tenho um fim. Nem começo
No
vaz/ME/io
sobre mim
há só pó e dó ré(ge) mi (nh'alma)
o silêncio
que há onde não tem
fim
não tenho um fim. Nem começo
No
vaz/ME/io
51.
Ao tempo não convém o acabar
Injustas as horas cruéis os minutos de massacres em segundos
Que não pass(am)o com você
Não há como pois foi-se o tempo
E levou meu amor
E ficou para
Não passa(r) a dor
De saber
Que o tempo só foi bom p'ra quem o quis acolher
Injustas as horas cruéis os minutos de massacres em segundos
Que não pass(am)o com você
Não há como pois foi-se o tempo
E levou meu amor
E ficou para
Não passa(r) a dor
De saber
Que o tempo só foi bom p'ra quem o quis acolher
49.
É como se por onde eu passasse ficasse
Verde, da cor de seus olhos
Vi nas suas palavras brancas mais que sempre
Sinceras a dor, não maior do que esses versos (lhe) cau(sam)saram
Em mim um conforto ao saber
Que posso contar a você por suspiros e ouvirá sempre
Palavras impossíveis de transcrever
(Esse não é para doer)
Se há paz agora, é porque no impulso disse a você o que era para ser
Falado e não lido, escrevo para mim, não se sinta atingido
O golpe de espada é no que sinto. Em mim
A dor de no amor me ver sorrindo
Quando as suas palavras ouço.
Palavras impossíveis de transcrever
(Essas sempre doem em mim)
Toma meu corpo que não aguento e joga fora
O que sinto agora é a leveza da alma
(Sua) minha
Não foi de esperança, não me iludiu ao dizer
Da minha falta
Foi de alívio, que me livrou desse peso, enfim: compartilho de seu sentimento.
Este sim, impossível de transcrever
Verde, da cor de seus olhos
Vi nas suas palavras brancas mais que sempre
Sinceras a dor, não maior do que esses versos (lhe) cau(sam)saram
Em mim um conforto ao saber
Que posso contar a você por suspiros e ouvirá sempre
Palavras impossíveis de transcrever
(Esse não é para doer)
Se há paz agora, é porque no impulso disse a você o que era para ser
Falado e não lido, escrevo para mim, não se sinta atingido
O golpe de espada é no que sinto. Em mim
A dor de no amor me ver sorrindo
Quando as suas palavras ouço.
Palavras impossíveis de transcrever
(Essas sempre doem em mim)
Toma meu corpo que não aguento e joga fora
O que sinto agora é a leveza da alma
(Sua) minha
Não foi de esperança, não me iludiu ao dizer
Da minha falta
Foi de alívio, que me livrou desse peso, enfim: compartilho de seu sentimento.
Este sim, impossível de transcrever
48.
(sozinho) Num quarto, na cama a taça de vinho, no chão a Bíblia rasgada, na parede Jesus crucificado, ainda na forma convencional.
Levanto-me e inverto o ser pregado.
Pregou a todos seus mais puros pensamentos.
E isso que bebo é sangue?
Nojento.
E um rato passa.
És talvez mais puro que eu, mais verdadeiro que Deus, mais humano que qualquer ratazana que conheci até hoje. E olha, não foram poucas.
Meretrizes imundas me roubaram todo o dinheiro já roubado.
Ladrão que rouba ladrão, cem anos de prisão ou no caso, um cu arrombado.
(mas que linguajar!)
um cu
arrombado,
sim senhora.
És caso perdido meu filho, reza a Deus, reza ao Pai, pede a salvação da alma, e... (ela desvirou o crucifixo, não mexe, não mexe na cruz, não mexe!)
Devia se envergonhar.
(a tranca)
Mais um dia trancado. Devo dizer que vi a Deus como vejo esses mofos no teto? É do teto que vem, esse barulho de passos?
(quieto, rato)
Bela adega. A parede de tijolos foi ideia sua ou da Maria?
(a risada mais alta que já ouvi na vida) Se Maria soubesse dessa adega, mandaria vir o padre, incendiaria isso tudo, depois de afanar todas essas bolsas de sangue que há anos resguardo, e me trancaria num quarto com uma Bíblia, uma crucifixo e muitos ratos, pra implorar por perdão.
(bem sei. Shhh, rato!)
E que esconde lá embaixo?
Aqui?
Essa porta
Um buraco trancado, mais trancado que o buraco da Maria.
(menti, agora escuto as risadas mais altas da minha vida. Calado, rato!)
Ouviu?
O que?
Isso... veio de baixo.
A adega sempre fica embaixo, pois o próximo passo é o inferno. Que tanto vocês homens fazem trancafiados a queijos e vinhos lá dentro? Maria vivia dizendo.
(mas será que as risadas não cessam?)
Vai ver é o Asmodeu pedindo pra ser convidado.
É. Ou vai ver é um rato.
(mas eu te disse pra ficar calado!)
Levanto-me e inverto o ser pregado.
Pregou a todos seus mais puros pensamentos.
E isso que bebo é sangue?
Nojento.
E um rato passa.
És talvez mais puro que eu, mais verdadeiro que Deus, mais humano que qualquer ratazana que conheci até hoje. E olha, não foram poucas.
Meretrizes imundas me roubaram todo o dinheiro já roubado.
Ladrão que rouba ladrão, cem anos de prisão ou no caso, um cu arrombado.
(mas que linguajar!)
um cu
arrombado,
sim senhora.
És caso perdido meu filho, reza a Deus, reza ao Pai, pede a salvação da alma, e... (ela desvirou o crucifixo, não mexe, não mexe na cruz, não mexe!)
Devia se envergonhar.
(a tranca)
Mais um dia trancado. Devo dizer que vi a Deus como vejo esses mofos no teto? É do teto que vem, esse barulho de passos?
(quieto, rato)
Bela adega. A parede de tijolos foi ideia sua ou da Maria?
(a risada mais alta que já ouvi na vida) Se Maria soubesse dessa adega, mandaria vir o padre, incendiaria isso tudo, depois de afanar todas essas bolsas de sangue que há anos resguardo, e me trancaria num quarto com uma Bíblia, uma crucifixo e muitos ratos, pra implorar por perdão.
(bem sei. Shhh, rato!)
E que esconde lá embaixo?
Aqui?
Essa porta
Um buraco trancado, mais trancado que o buraco da Maria.
(menti, agora escuto as risadas mais altas da minha vida. Calado, rato!)
Ouviu?
O que?
Isso... veio de baixo.
A adega sempre fica embaixo, pois o próximo passo é o inferno. Que tanto vocês homens fazem trancafiados a queijos e vinhos lá dentro? Maria vivia dizendo.
(mas será que as risadas não cessam?)
Vai ver é o Asmodeu pedindo pra ser convidado.
É. Ou vai ver é um rato.
(mas eu te disse pra ficar calado!)
47.
Numa mesa. Adega escura, queijos e um vinho ao centro, começam(os) a conversa.
Ofereço-lhe uma taça
Não, obrigada.
Sei que bebes, por que a recusa do que te ergues?
Não agora. Querias acertar contas. Cá estou, sóbria, ao menos essa vez, pra me ouvir.
...
No que erramos?
Erramos? Tu erraste.
E me condenas? Ameaças de ir e não voltar.
Se eu for, não há como voltar.
Deixarias-me a mercê?
Com vinho, pois bem.
Não importa o vinho.
Se nem o vinho importa qual minha função em sua...
Isso! És minha vida! Não podes deixar-me assim! Quem me acompanhará nas bebidas, ó Vida?
Antes eu engolia. Irônico ter-me matado antes de me deixar desempenhar meu papel. Não há nada agora que te faças honrar minha...
Existência, por favor, chame-a. A Vida me cansa, e tu, calada, existes mas não te manifestas, não fazes nada, ao menos me chame a Morte.
(chama a Morte)
Finalmente
És mais branca do que imaginei
Prazer.
É mesmo? Prazeroso morrer?
Pergunte à Vida
(num gole) É uma delícia, como teu vinho.
E o existir é mantido após a morte?
Evidente. Na morte há (r)Existência.
Não resisto! Dá-me um gole!
Como? Já provaste...
E se não gostar?
Dou à Existência. Se não gostar, vomitas, certo?
minha Existência bebeu do único gole que havia. Vomitou e minha Vida provou de seus restos, pedaços, gotas de morte, dia após dia, numa rotina de uma alcoólatra. A Vida bêbada de Morte. Engasgou com a última, e no fim, na adega, cá estou. Eu?
Não há Existência, nem Vida, nem Morte.
Um brinde à nós?
A mim?
A ninguém.
Ao vinho.
Ofereço-lhe uma taça
Não, obrigada.
Sei que bebes, por que a recusa do que te ergues?
Não agora. Querias acertar contas. Cá estou, sóbria, ao menos essa vez, pra me ouvir.
...
No que erramos?
Erramos? Tu erraste.
E me condenas? Ameaças de ir e não voltar.
Se eu for, não há como voltar.
Deixarias-me a mercê?
Com vinho, pois bem.
Não importa o vinho.
Se nem o vinho importa qual minha função em sua...
Isso! És minha vida! Não podes deixar-me assim! Quem me acompanhará nas bebidas, ó Vida?
Antes eu engolia. Irônico ter-me matado antes de me deixar desempenhar meu papel. Não há nada agora que te faças honrar minha...
Existência, por favor, chame-a. A Vida me cansa, e tu, calada, existes mas não te manifestas, não fazes nada, ao menos me chame a Morte.
(chama a Morte)
Finalmente
És mais branca do que imaginei
Prazer.
É mesmo? Prazeroso morrer?
Pergunte à Vida
(num gole) É uma delícia, como teu vinho.
E o existir é mantido após a morte?
Evidente. Na morte há (r)Existência.
Não resisto! Dá-me um gole!
Como? Já provaste...
E se não gostar?
Dou à Existência. Se não gostar, vomitas, certo?
minha Existência bebeu do único gole que havia. Vomitou e minha Vida provou de seus restos, pedaços, gotas de morte, dia após dia, numa rotina de uma alcoólatra. A Vida bêbada de Morte. Engasgou com a última, e no fim, na adega, cá estou. Eu?
Não há Existência, nem Vida, nem Morte.
Um brinde à nós?
A mim?
A ninguém.
Ao vinho.
46.
Conflitos. No caos o alimento p’ra travar consigo
Armado de melodias , de sambas, de sorrisos (os seus e os delas)
As batalhas que ora ganhava, ora derrotava-se
Em meio a esse campo de sentimentos prestes a explodir(.)
Em versos as mais profundas e largas extensões de sua alma intensamente vívida.
Vivida e lida no reflexo das palavras, sua essência descrita, cantada, declamada
Em suas formas fixas, não fixas,
Recriadas.
Na alegria das baladas nasceram marinas, marílias, marias
Na dor das elegias morreu o amor; entre lamúrias, a melancolia
Dão lugar à razão os sonetos que também dão-lhe um título:
O de Camões Brasileiro
Na fé encontra a primeira parte da alma
Na carne perde-se p’ra uma nova fase que preza o real
Reza a Deus por um caminho e
Anda pelo mundo dia após dia, num dia-a-dia de amores
Que fundem, que passam, que lhe tocam o corpo, que lhe tocam a alma,
Que acontecem e crescem e mudam e desaparecem e merecem
Todos eles um registro em apaixonadas linhas pelo poeta
Que inventou a dor p’ra não morrer na solidão do amor
Armado de melodias , de sambas, de sorrisos (os seus e os delas)
As batalhas que ora ganhava, ora derrotava-se
Em meio a esse campo de sentimentos prestes a explodir(.)
Em versos as mais profundas e largas extensões de sua alma intensamente vívida.
Vivida e lida no reflexo das palavras, sua essência descrita, cantada, declamada
Em suas formas fixas, não fixas,
Recriadas.
Na alegria das baladas nasceram marinas, marílias, marias
Na dor das elegias morreu o amor; entre lamúrias, a melancolia
Dão lugar à razão os sonetos que também dão-lhe um título:
O de Camões Brasileiro
Na fé encontra a primeira parte da alma
Na carne perde-se p’ra uma nova fase que preza o real
Reza a Deus por um caminho e
Anda pelo mundo dia após dia, num dia-a-dia de amores
Que fundem, que passam, que lhe tocam o corpo, que lhe tocam a alma,
Que acontecem e crescem e mudam e desaparecem e merecem
Todos eles um registro em apaixonadas linhas pelo poeta
Que inventou a dor p’ra não morrer na solidão do amor
a Vinicius.
45.
calor de verão
o ônibus lotado
Hilda Hilst em mãos
e lá vou eu sentada (ao menos dessa vez)
pra casa
quente, quente
sinto a face inchar,
rósea é eufemismo
para a cor
da minha pele toda, derretendo
mais um dia que só passa porque é dia
rotina
mas eis
que chegando
a porta zumbiu e bateu
não choveu
mas um manual explicou-me
a teoria
em um pouco mais de três linhas
pode ser que vá chover logo
lógico
o ilógico
hoje,
vi sua tentativa
li o que escreveu como sempre, mas desta vez para mim
deixou-me feliz
como há dias não tenho estado
e a qualquer hora sim
talvez um chá? quem sabe
aceito o convite.
vi sua tentativa
li o que escreveu como sempre, mas desta vez para mim
deixou-me feliz
como há dias não tenho estado
e a qualquer hora sim
talvez um chá? quem sabe
aceito o convite.
44.
to comendo sagu. e eu marzipan. aprendeu a gostar?
(aprendi muitas coisas. é rápido, desaprender é que é difícil. aprendi até a conviver. Não com o que, sem o que)
tem que esquecer. não consigo. ou tentar, viver sei lá. é, sei lá. começa a se preocupar, com você.
ontem olhei pela janela
sou como uma nuvem
acho que não me movo sem a Terra
como você está? bem... que bom, eu também. não parece. é, talvez não esteja. quer conversar? não sei se é bom, talvez o não-falar resolva
por enquanto. o que for melhor pra você.
mas não é, pra ti
(começo a me preocupar)
ruim sem mim
tudo bem. eu aviso quando estiver pronta. (estou!). talvez demore. (um dia) alguns. o quanto precisar. (preciso de ti)
Eu me rendia, suave o dia em que me entreguei, não da primeira vez. aquela. suave é a palavra, com calma me tomava por inteira, corpo e alma. e maltratava, zombava de minha afobação, sem pressa tocava minha pele e ria. gostava de me ver sofrer. não que eu sofria. ah, doce o arrepio que aquela boca fazia quando tão perto estava. passava, seu molhado se confundia com o meu. antes mesmo de me tocar, ah
por que? para de tentar entender! tornar tudo isso racional, nem eu sei! Quer comer, não é? você quer sair por aí metendo em cada buraco que achar devido. não é isso. é fácil pra você, é melhor, foi agora porque você quis! e eu? você é a pior pessoa do mundo, e eu me arrependo de ter te amado tanto
nós que nos
pensei que
amávamos tanto
eu ainda te amo. pode parecer estranho eu dizer isso, mas também te amo.
ainda há? não há
não pode haver
esperança
para de pensar nisso. esquece um pouco, eu não vou voltar, não agora. não posso te explicar, mas também não posso te deixar assim.
já deixou.
e a raiva
passou.
estarei sempre aqui, quando quiser (quero agora) pra desabafar, conversar. tenta melhorar. tenta entender você! me entender. não entendo nem a mim.
gavetas, gaveta
bagunçada
sem certeza, sua certeza, certeza de nada
queria ter raiva, muita raiva, poder t(r)ocá-lo.
as gotas do chuveiro caíam de modo a me cegar, não via nada além da água, entre nós seu beijo molhado e seu abraço encharcado. um movimento dele me protegia da correnteza que pingava. pingava pouco, mas o suficiente para dois. um banho a dois, depois do baile.
saudade
sinto sua falta, não sente a minha? em vários momentos, mas eu estou bem assim. deixa as coisas acontecerem (pequena)
como gostaria de tirar os parênteses. Deixa as coisas acontecerem, pequena. mas acho que não me chamou, gostava quando chamava.
e o que aconteceu com você é a mulher da minha vida? o que aconteceu com o netos correndo em nossos joelhos?
talvez aconteça
talvez não comigo
talvez eu não entenda
que teu tempo contigo é meu tempo que eu insisto em deter
parar como uma nuvem no céu
ou fingir que ando, mas é o vento ou a Terra que me movem
não quero mais fingir. quero andar e andar até entender
que parar, não é morrer
e que um tempo que para não passa
parados. mas ambos em movimento.
uma pausa.
é assim que deve ser.
preciso parar de tentar entender.
(aprendi muitas coisas. é rápido, desaprender é que é difícil. aprendi até a conviver. Não com o que, sem o que)
tem que esquecer. não consigo. ou tentar, viver sei lá. é, sei lá. começa a se preocupar, com você.
ontem olhei pela janela
sou como uma nuvem
acho que não me movo sem a Terra
como você está? bem... que bom, eu também. não parece. é, talvez não esteja. quer conversar? não sei se é bom, talvez o não-falar resolva
por enquanto. o que for melhor pra você.
mas não é, pra ti
(começo a me preocupar)
ruim sem mim
tudo bem. eu aviso quando estiver pronta. (estou!). talvez demore. (um dia) alguns. o quanto precisar. (preciso de ti)
Eu me rendia, suave o dia em que me entreguei, não da primeira vez. aquela. suave é a palavra, com calma me tomava por inteira, corpo e alma. e maltratava, zombava de minha afobação, sem pressa tocava minha pele e ria. gostava de me ver sofrer. não que eu sofria. ah, doce o arrepio que aquela boca fazia quando tão perto estava. passava, seu molhado se confundia com o meu. antes mesmo de me tocar, ah
por que? para de tentar entender! tornar tudo isso racional, nem eu sei! Quer comer, não é? você quer sair por aí metendo em cada buraco que achar devido. não é isso. é fácil pra você, é melhor, foi agora porque você quis! e eu? você é a pior pessoa do mundo, e eu me arrependo de ter te amado tanto
nós que nos
pensei que
amávamos tanto
eu ainda te amo. pode parecer estranho eu dizer isso, mas também te amo.
ainda há? não há
não pode haver
esperança
para de pensar nisso. esquece um pouco, eu não vou voltar, não agora. não posso te explicar, mas também não posso te deixar assim.
já deixou.
e a raiva
passou.
estarei sempre aqui, quando quiser (quero agora) pra desabafar, conversar. tenta melhorar. tenta entender você! me entender. não entendo nem a mim.
gavetas, gaveta
bagunçada
sem certeza, sua certeza, certeza de nada
queria ter raiva, muita raiva, poder t(r)ocá-lo.
as gotas do chuveiro caíam de modo a me cegar, não via nada além da água, entre nós seu beijo molhado e seu abraço encharcado. um movimento dele me protegia da correnteza que pingava. pingava pouco, mas o suficiente para dois. um banho a dois, depois do baile.
saudade
sinto sua falta, não sente a minha? em vários momentos, mas eu estou bem assim. deixa as coisas acontecerem (pequena)
como gostaria de tirar os parênteses. Deixa as coisas acontecerem, pequena. mas acho que não me chamou, gostava quando chamava.
e o que aconteceu com você é a mulher da minha vida? o que aconteceu com o netos correndo em nossos joelhos?
talvez aconteça
talvez não comigo
talvez eu não entenda
que teu tempo contigo é meu tempo que eu insisto em deter
parar como uma nuvem no céu
ou fingir que ando, mas é o vento ou a Terra que me movem
não quero mais fingir. quero andar e andar até entender
que parar, não é morrer
e que um tempo que para não passa
parados. mas ambos em movimento.
uma pausa.
é assim que deve ser.
preciso parar de tentar entender.
43.
Estava caminhando e me disse, na rua mesmo que...quem? Eu não sei quem era. Quer mais chá? Um pouco. Foi estranho. Parecia que já me conhecia há tempos. O tempo estava feio hoje, não? Terrível! Foi daí que ele me falou. Do nada? Assim. Mais chá? Obrigada. Olha, se tem uma coisa em que eu não acredito é coincidência. Eu sim. O que? Acredito que há. Mas não foi. Foi o que? Ele me conhecia. De onde? Não sei. E o que ele disse?
a chuva estava densa
o vento forte me desequilibrava
enquanto passava
me olhava
E só olhava?
não, levou-me pra perto dele
não sei como
me olhou de novo
e
Disse o que?
Chá, põe mais chá. Falou o que? Por favor. As horas? Não, por favor mais chá. Ficamos parados. Enquanto isso uma senhora caiu. A chuva estava de matar hoje, não? É assim que eu gosto. Quente demais? Mais água, por favor. E então? Ajudou-a. Tão gentil, e bonito. E as palavras?
Não foram ditas.
Disse-me tudo.
a chuva estava densa
o vento forte me desequilibrava
enquanto passava
me olhava
E só olhava?
não, levou-me pra perto dele
não sei como
me olhou de novo
e
Disse o que?
Chá, põe mais chá. Falou o que? Por favor. As horas? Não, por favor mais chá. Ficamos parados. Enquanto isso uma senhora caiu. A chuva estava de matar hoje, não? É assim que eu gosto. Quente demais? Mais água, por favor. E então? Ajudou-a. Tão gentil, e bonito. E as palavras?
Não foram ditas.
Disse-me tudo.
42.
Aquilo que estava aqui não mais está.
O que deveria ser, nunca foi e jamais será
Nem mesmo isso é
isto é, não é
não é, não sou.
isso sou eu.
SELECIONAR
SELECIONAR
41.
Se o erro maior é acreditar,
Desacredito que crer é errar
Mas erro em ti mil vezes até perceber
Que estava certa ao errar p'ra te amar
E me enganei porque o errar é sofrer
40.
A carne forte padece do mal da alma.
Fraca alma, ingênua e calada é tomada
Por outra carne forte e alma fraca
Enfraqueceu-se do mal que sofreu por bem disse que a carne era fraca.
a alma é que é fraca
Fraca alma, ingênua e calada é tomada
Por outra carne forte e alma fraca
Enfraqueceu-se do mal que sofreu por bem disse que a carne era fraca.
a alma é que é fraca
39.
não há, pode não-será
será?
não vê? Que no final é só
sofrer
O que já foi passou, mas
ficou
A marca-de-alguém
que um dia eu amei. E amo. E amarei.
será?
não vê? Que no final é só
sofrer
O que já foi passou, mas
ficou
A marca-de-alguém
que um dia eu amei. E amo. E amarei.
38.
Choro porque desprovida de defesas entreguei meu amor a ele.
Aproximou-se com seu andar de encontro-meu, olhou-me nos olhos e sua boca tão próxima a minha pronunciou.
Duras palavras que ao ouvir calaram minhas forças.
Tocou meus cabelos e os prendeu em suas mãos. Encostou-se e o último beijo fora o que mais me doeu. E chorou.
Choro de quem não voltará.
Aproximou-se com seu andar de encontro-meu, olhou-me nos olhos e sua boca tão próxima a minha pronunciou.
Duras palavras que ao ouvir calaram minhas forças.
Tocou meus cabelos e os prendeu em suas mãos. Encostou-se e o último beijo fora o que mais me doeu. E chorou.
Choro de quem não voltará.
36.
à espera...
Se há dúvida é porque antecede a certeza
Mas a cada dúvida o certo é incerto
E a cada pergunta a resposta é
A fuga pra um onde longe de mim.
Queres buscar sozinho a ti próprio
E o que encontrarás está a definir
Sem mim. E se eu não estiver lá?
És certo, de correto,
Sou medo, de perder-te pois
É incerta, a volta.
E posso impedir? Afogar-te em lágrimas e beber-te?
Engolir-te em suspiros, iludir-te com abraços
Adiar. Minhas súplicas
Não são válidas, nenhuma forma de deter é!
Se voltar saibas tu que
a espera do (re)começo não tem fim.
Se há dúvida é porque antecede a certeza
Mas a cada dúvida o certo é incerto
E a cada pergunta a resposta é
A fuga pra um onde longe de mim.
Queres buscar sozinho a ti próprio
E o que encontrarás está a definir
Sem mim. E se eu não estiver lá?
És certo, de correto,
Sou medo, de perder-te pois
É incerta, a volta.
E posso impedir? Afogar-te em lágrimas e beber-te?
Engolir-te em suspiros, iludir-te com abraços
Adiar. Minhas súplicas
Não são válidas, nenhuma forma de deter é!
Se voltar saibas tu que
a espera do (re)começo não tem fim.
35.
Qualquer tentativa de se definir e de descrever o funcionamento da Estética de um modo racional e linear será uma visão meramente técnica, fria, superficial e unilateral do que realmente se deve levar em conta a respeito do assunto. É preciso a observação e, acima de tudo, a experimentação de faces complementares e múltiplas, que paradoxalmente compõe uma realidade única. É a essa experimentação que deram, por convenção, o nome de arte e a estética seria uma forma conjunta da arte e da ação humana que permite caracterizar algo como belo e feio, por exemplo. Para Kant, essa caracterização é individual e não depende do objeto. De fato a arte é uma livre representação a partir de universos pessoais. É exclusivo do indivíduo o comportamento emocional gerado a partir dessa experimentação, guiada pelos sentidos. Cito Nietzsche para tal: “O ser próprio procura também com os olhos do sentido e escuta com os ouvidos do espírito”.
Enquanto a arte é uma criação que simula a realidade, e enquanto o artista não se apropria de uma mensagem específica e de um objetivo direcionado e manipulador, esta pode ser interpretada livremente e individualmente. Cabe ao ser, de acordo com o resultado de sua experimentação da obra, a classificação de sua importância. Importância, porque não se deve classificar algo como belo e feio. Esses conceitos racionais e concretos, antagônicos em existência perturbam uma visão, da qual compartilho, na qual tudo que se choca, se sustenta, simultaneamente. A dialética dessa visão e a convivência necessária de opostos na realidade, devem estar presentes na arte, sendo que esta trata da representação do real. É nesse sentido da não-definição que, quando o artista toma a arte como meio vendável de massificação, ela deixa de ser arte e passa a ser cultura de massa.
Não se pode direcionar essa experimentação como se direciona rebanhos, e no século XX, essa cultura fabricada tem por fim criar gostos universais, padrões, homogenizar e assim, quebrar com o (se assim pode se chamar) conceito de arte. A televisão é um meio manipulador assim como o rádio ou o cinema, que transmitem seus produtos para a massa, esta que quanto mais “livre” e inserida numa sociedade mais democrática, mais fácil de ser atingida.
A indústria cultural cria valores estéticos e padrões que são constantementes lançados e seguidos cegamente com uma roupagem de arte, mas que na verdade não possuem nem sua essência, que dirá seu nome.
A essência da arte, se é que há uma, não dá forma a vida, não estabelece padrões, não é universal, não é bela nem feia. Não se pode defini-la se levarmos em conta que sua verdadeira essência é a importância individual e indescritível de experimentação da vida real. A essência da arte é a própria arte. Cada um a vê de um jeito porque vive de um jeito, e se há o espaço para essas infinitas visões, há um espaço infinito para diferentes formas de belo, de arte e de estética.
Enquanto a arte é uma criação que simula a realidade, e enquanto o artista não se apropria de uma mensagem específica e de um objetivo direcionado e manipulador, esta pode ser interpretada livremente e individualmente. Cabe ao ser, de acordo com o resultado de sua experimentação da obra, a classificação de sua importância. Importância, porque não se deve classificar algo como belo e feio. Esses conceitos racionais e concretos, antagônicos em existência perturbam uma visão, da qual compartilho, na qual tudo que se choca, se sustenta, simultaneamente. A dialética dessa visão e a convivência necessária de opostos na realidade, devem estar presentes na arte, sendo que esta trata da representação do real. É nesse sentido da não-definição que, quando o artista toma a arte como meio vendável de massificação, ela deixa de ser arte e passa a ser cultura de massa.
Não se pode direcionar essa experimentação como se direciona rebanhos, e no século XX, essa cultura fabricada tem por fim criar gostos universais, padrões, homogenizar e assim, quebrar com o (se assim pode se chamar) conceito de arte. A televisão é um meio manipulador assim como o rádio ou o cinema, que transmitem seus produtos para a massa, esta que quanto mais “livre” e inserida numa sociedade mais democrática, mais fácil de ser atingida.
A indústria cultural cria valores estéticos e padrões que são constantementes lançados e seguidos cegamente com uma roupagem de arte, mas que na verdade não possuem nem sua essência, que dirá seu nome.
A essência da arte, se é que há uma, não dá forma a vida, não estabelece padrões, não é universal, não é bela nem feia. Não se pode defini-la se levarmos em conta que sua verdadeira essência é a importância individual e indescritível de experimentação da vida real. A essência da arte é a própria arte. Cada um a vê de um jeito porque vive de um jeito, e se há o espaço para essas infinitas visões, há um espaço infinito para diferentes formas de belo, de arte e de estética.
34.
Sentimento de culpa
Doeu
Dói
Espero não doer mais
não foi minha, não foi, não foi. Mas a dor é a mesma. Sinto te perder e nada tenho a fazer.
Vai ser feliz
Doeu
Dói
Espero não doer mais
não foi minha, não foi, não foi. Mas a dor é a mesma. Sinto te perder e nada tenho a fazer.
Vai ser feliz
33.
Encantavam-me os pássaros, principalmente aquele que vivia na casa da minha avó.
Era eu chegar e ele sabia - recebia-me com cantos das mais belas melodias. Para cada vez, uma recepção diferente e eu conversava, até demais, com aquele ser que me fascinava. Era um tipo de afeto correspondido, apesar da minha mãe viver dizendo que só cachorro é que demonstra amor ao dono. Se era verdade, àquele pássaro essa regra não se aplicava. E por horas eu podia ficar olhando, seguindo seus passos, observando atentamente aquelas minúsculas e tão bem executadas ações.
A hora mais bonita era a do banho. Minha vontade era de entrar naquela gaiola e compartilhar daquele momento com ele. Eu entrei, e nos banhamos com seu canto-para-banho. Era bonito, uma espécie de sintetizador natural de voz, a água que gargarejava tornava a música ainda mais interessante. Saí seca nesse dia, obviamente. Mas foi o melhor banho da minha vida.
Eu nunca o toquei.
Meu amor era transmitido pelo olhar, pr'aqueles pequenos olhos cercados de penas brancas. Sua cabeça se inclinava de um jeito a me pedir um toque. Mas eu nunca o atendi.
Um dia o quis. Quis tirá-lo de lá, apresentar-lhe meu mundo, quis que ele soubesse que o amor que eu sentia era tão grande que não poderia mais apenas visitá-lo todos os finais de semana e passar horas olhando tudo menos seu voo. Queria vê-lo voando e voar junto. Queria vê-lo feliz, queria e fazia de tudo para que ficasse feliz.
Minha família reunida na cozinha e a vontade de cumprir meu desejo ficou tão grande que não me contive. Levantei enquanto todos ouviam uma piada do meu irmão. Eu só ouvia o piado do meu grande amigo, e foi para lá, para sala, para ele que eu fui.
Abri a gaiola, meu coração num ritmo tão acelerado que pensei que fosse parar depois daquilo. Entre minhas mãos o segurei, com todo o cuidado que podia ter com algo e elas estavam quentes. Fervendo, podia sentir o suor que de mim saía molhar-lhe as penas. Era tão pequeno, tão leve. Seu coração também batia forte, mas muito mais que o meu. Devia estar feliz por sair, por estar em minhas mãos, por finalmente viver aquele encontro. Mais rápido, e mais rápido seu peito se enchia e se esvaziava de ar, até que se encheu e esvaziou sem encher de novo.
Seu coração parou.
Desesperei-me. Como poderia ter sido a causadora de sua morte, por quê? Tudo era tão bom, ele me amava e eu também, tínhamos um plano, eu iria tirá-lo de lá, fiz de tudo para tirá-lo de lá, não para ser meu...
Para voar!
Seu voo não aconteceu, minha família me condenou, pássaros precisam de muito cuidado ao serem manipulados, eles são frágeis, uma pressão em um ponto que não poderia pressionar e causaria uma fratura!
Mas foi de emoção, não sei. Não quero e nunca quis crer que foi pressão. Eu o amava demais para pressioná-lo, amava-o demais para machucá-lo, só queria seu bem.
Quis morrer com ele, quis ouvir uma canção de novo, quis seu conforto.
Meu pequeno pássaro branco, cantando em todas as noites que se seguiram. Noites mortas.
Foi minha culpa. E nem voar eu o deixei.
Dói tanto que nem sei dizer, perder você seria como me perder.
Me odeio por isso, sou a causadora disso, e não erraria mais uma vez, por isso voa se quiser voar, e volta se quiser voltar. Deixar de ouvir seu canto eu nunca deixarei de ouvir.
Era eu chegar e ele sabia - recebia-me com cantos das mais belas melodias. Para cada vez, uma recepção diferente e eu conversava, até demais, com aquele ser que me fascinava. Era um tipo de afeto correspondido, apesar da minha mãe viver dizendo que só cachorro é que demonstra amor ao dono. Se era verdade, àquele pássaro essa regra não se aplicava. E por horas eu podia ficar olhando, seguindo seus passos, observando atentamente aquelas minúsculas e tão bem executadas ações.
A hora mais bonita era a do banho. Minha vontade era de entrar naquela gaiola e compartilhar daquele momento com ele. Eu entrei, e nos banhamos com seu canto-para-banho. Era bonito, uma espécie de sintetizador natural de voz, a água que gargarejava tornava a música ainda mais interessante. Saí seca nesse dia, obviamente. Mas foi o melhor banho da minha vida.
Eu nunca o toquei.
Meu amor era transmitido pelo olhar, pr'aqueles pequenos olhos cercados de penas brancas. Sua cabeça se inclinava de um jeito a me pedir um toque. Mas eu nunca o atendi.
Um dia o quis. Quis tirá-lo de lá, apresentar-lhe meu mundo, quis que ele soubesse que o amor que eu sentia era tão grande que não poderia mais apenas visitá-lo todos os finais de semana e passar horas olhando tudo menos seu voo. Queria vê-lo voando e voar junto. Queria vê-lo feliz, queria e fazia de tudo para que ficasse feliz.
Minha família reunida na cozinha e a vontade de cumprir meu desejo ficou tão grande que não me contive. Levantei enquanto todos ouviam uma piada do meu irmão. Eu só ouvia o piado do meu grande amigo, e foi para lá, para sala, para ele que eu fui.
Abri a gaiola, meu coração num ritmo tão acelerado que pensei que fosse parar depois daquilo. Entre minhas mãos o segurei, com todo o cuidado que podia ter com algo e elas estavam quentes. Fervendo, podia sentir o suor que de mim saía molhar-lhe as penas. Era tão pequeno, tão leve. Seu coração também batia forte, mas muito mais que o meu. Devia estar feliz por sair, por estar em minhas mãos, por finalmente viver aquele encontro. Mais rápido, e mais rápido seu peito se enchia e se esvaziava de ar, até que se encheu e esvaziou sem encher de novo.
Seu coração parou.
Desesperei-me. Como poderia ter sido a causadora de sua morte, por quê? Tudo era tão bom, ele me amava e eu também, tínhamos um plano, eu iria tirá-lo de lá, fiz de tudo para tirá-lo de lá, não para ser meu...
Para voar!
Seu voo não aconteceu, minha família me condenou, pássaros precisam de muito cuidado ao serem manipulados, eles são frágeis, uma pressão em um ponto que não poderia pressionar e causaria uma fratura!
Mas foi de emoção, não sei. Não quero e nunca quis crer que foi pressão. Eu o amava demais para pressioná-lo, amava-o demais para machucá-lo, só queria seu bem.
Quis morrer com ele, quis ouvir uma canção de novo, quis seu conforto.
Meu pequeno pássaro branco, cantando em todas as noites que se seguiram. Noites mortas.
Foi minha culpa. E nem voar eu o deixei.
Dói tanto que nem sei dizer, perder você seria como me perder.
Me odeio por isso, sou a causadora disso, e não erraria mais uma vez, por isso voa se quiser voar, e volta se quiser voltar. Deixar de ouvir seu canto eu nunca deixarei de ouvir.
32.
Hoje.O dia em que não estou morrendo.
O dia em que cada pedaço desse cadáver que ainda insistem em identificar como corpo ainda pulsa num cadente suave. O único e triste indício de vida.
Algo que chamam de cor aparece em minha face, um róseo inicialmente mórbido e escasso que com dificuldade vai se espalhando. Em fases crescentes a intensidade do vermelho se manifesta até sua mais pura e verdadeira forma, falsamente expressão de vida, expressamente momento de raiva.
Pequenos movimentos involuntários e quase imperceptíveis mas frequentes que não param de acontecer por toda essa carcaça fétida, carcaça que cobre e ainda se mantém funcionando por pura inércia e infelicidade do destino. Um coração que trabalha no automático para...para...para...para... parar.
É por inércia também que as pernas locomovem esse fardo cansado de sua existência indiferente e dispensável, como o que há dentro, carregam o peso daquilo que por ironia ainda vive.
Camada por camada sobrevive num absurdo que é essa resistência gerada do nada. Sim, pois força há muito me falta. Só não para mover esse músculo abaixo dos reservatórios de ar presentes nessa caixa vazia que inflam e desinflam constantemente.
Então o vermelho some, assim como o ar. Não aos poucos como ocorrem os batimentos mas bruscamente como deveriam assim cessar. Foi um momento, um susto, umas palavras, uma confirmação penosa, um estrondo, um golpe que não atingiu (infelizmente) esse... corpo. Certeiro na alma.
Disse-me que eu havia morrido.
Você me disse. Quem não poderia ter dito, em alto e claro, muito alto, bem mais alto que claro, tão alto que fez-se claro.
"Você morreu para mim. E faz tempo".
Tempo. Tão lento passaram ecoando essas (duras) palavras em meu vago corpo fatigado repetidas vezes, como num vale alto o eco que percorreu-me por todo esse tempo. Matou-me de fato, enfim.
Hoje. O dia em que finalmente morri.
O dia em que cada pedaço desse cadáver que ainda insistem em identificar como corpo ainda pulsa num cadente suave. O único e triste indício de vida.
Algo que chamam de cor aparece em minha face, um róseo inicialmente mórbido e escasso que com dificuldade vai se espalhando. Em fases crescentes a intensidade do vermelho se manifesta até sua mais pura e verdadeira forma, falsamente expressão de vida, expressamente momento de raiva.
Pequenos movimentos involuntários e quase imperceptíveis mas frequentes que não param de acontecer por toda essa carcaça fétida, carcaça que cobre e ainda se mantém funcionando por pura inércia e infelicidade do destino. Um coração que trabalha no automático para...para...para...para... parar.
É por inércia também que as pernas locomovem esse fardo cansado de sua existência indiferente e dispensável, como o que há dentro, carregam o peso daquilo que por ironia ainda vive.
Camada por camada sobrevive num absurdo que é essa resistência gerada do nada. Sim, pois força há muito me falta. Só não para mover esse músculo abaixo dos reservatórios de ar presentes nessa caixa vazia que inflam e desinflam constantemente.
Então o vermelho some, assim como o ar. Não aos poucos como ocorrem os batimentos mas bruscamente como deveriam assim cessar. Foi um momento, um susto, umas palavras, uma confirmação penosa, um estrondo, um golpe que não atingiu (infelizmente) esse... corpo. Certeiro na alma.
Disse-me que eu havia morrido.
Você me disse. Quem não poderia ter dito, em alto e claro, muito alto, bem mais alto que claro, tão alto que fez-se claro.
"Você morreu para mim. E faz tempo".
Tempo. Tão lento passaram ecoando essas (duras) palavras em meu vago corpo fatigado repetidas vezes, como num vale alto o eco que percorreu-me por todo esse tempo. Matou-me de fato, enfim.
Hoje. O dia em que finalmente morri.
31.
Nesse pranto
Num momento
Eu lhe encontro
Você me escuta
Eu me ouço
Dentro falo
Fora sofro
Pra dizer
O que é pra ser dito.
Não precisa
Me entende
Respiro
De novo
Digo,
Por causa tua
É que choro
Tanto
O que não consigo dizer é por que.
Eu não sofro
Não há ódio
Não há raiva
Nem desgosto
Não há como
Explicar
Que tudo não passa
De não há
Passa a vontade de chorar
Há
Algo quando
Está ao meu lado
Respiro dobrado
O peito apertado
Cada coisa
Sua é essa
Minha felicidade
Feliz que com você é assim
E alegres
Gotas
No rosto
De encontro
A um sorriso
Gigantesco
Como o que
Sinto
Choro de quem ama e se dá conta disso.
Num momento
Eu lhe encontro
Você me escuta
Eu me ouço
Dentro falo
Fora sofro
Pra dizer
O que é pra ser dito.
Não precisa
Me entende
Respiro
De novo
Digo,
Por causa tua
É que choro
Tanto
O que não consigo dizer é por que.
Eu não sofro
Não há ódio
Não há raiva
Nem desgosto
Não há como
Explicar
Que tudo não passa
De não há
Passa a vontade de chorar
Há
Algo quando
Está ao meu lado
Respiro dobrado
O peito apertado
Cada coisa
Sua é essa
Minha felicidade
Feliz que com você é assim
E alegres
Gotas
No rosto
De encontro
A um sorriso
Gigantesco
Como o que
Sinto
Choro de quem ama e se dá conta disso.
30.
Não bus(quem)carei me entender para explicar minha arte
feita para explicar o que não se entende de mim.
Essencial é
minha casa no exílio, meus amigos em solidão,
Presença concreta do amor em pensamento
minha família no silêncio
É no silêncio que (se) cri(a)o.
Não verei cores até que meus olhos consigam entender
que é do branco (desse papel) ou do preto (de minha lente)
que aprendo a enxergá-las.
(Aprendam que é)
No colorir da arte inexplicavelmente essencial que me dedico até o fim.
Não por mim.
Simples assim.
feita para explicar o que não se entende de mim.
Essencial é
minha casa no exílio, meus amigos em solidão,
Presença concreta do amor em pensamento
minha família no silêncio
É no silêncio que (se) cri(a)o.
Não verei cores até que meus olhos consigam entender
que é do branco (desse papel) ou do preto (de minha lente)
que aprendo a enxergá-las.
(Aprendam que é)
No colorir da arte inexplicavelmente essencial que me dedico até o fim.
Não por mim.
Simples assim.
29.
Foi um acaso marcado
Olhavas de longe meu sorriso forjado
(aprendi a sorrir contigo)
Sonhava com alguém que já sonhava comigo
Quem era? Uma palavra
(ou meia dúzia delas)
E eu sabia. Numa tentativa modesta
Vieste a mim em conversa
(e certamente da conversa passarias)
Senti, senti que era a ti que entregaria
Aquela tarde
(aquelas)
Conversas na calada madrugada
Por tempos sua voz à surdina
(ecoava, todavia)
E eu queria
Desejava conversas ao pé do ouvido
(viraria o rosto e minha face beijarias)
Por tempos, passeio
De mãos dadas com meu travasseiro
(pensei eu, que logo de suas mãos precisaria)
Encontraríamo-nos, combinamos
Nunca a ansiedade tomou-me tanto
(na noite que antecedeu não dormia)
No dia em que aconteceu minha alegria
Ao ver-te, à espera por um beijo meu
(não esperaste no entanto, me beijaste)
Ao abrir os olhos eram teus olhos
O meu corpo em teu abraço
(meu coração em tuas mãos)
Teu sorriso em minha mente
E num segundo dei-me conta
(Terias meu amor para sempre)
Olhavas de longe meu sorriso forjado
(aprendi a sorrir contigo)
Sonhava com alguém que já sonhava comigo
Quem era? Uma palavra
(ou meia dúzia delas)
E eu sabia. Numa tentativa modesta
Vieste a mim em conversa
(e certamente da conversa passarias)
Senti, senti que era a ti que entregaria
Aquela tarde
(aquelas)
Conversas na calada madrugada
Por tempos sua voz à surdina
(ecoava, todavia)
E eu queria
Desejava conversas ao pé do ouvido
(viraria o rosto e minha face beijarias)
Por tempos, passeio
De mãos dadas com meu travasseiro
(pensei eu, que logo de suas mãos precisaria)
Encontraríamo-nos, combinamos
Nunca a ansiedade tomou-me tanto
(na noite que antecedeu não dormia)
No dia em que aconteceu minha alegria
Ao ver-te, à espera por um beijo meu
(não esperaste no entanto, me beijaste)
Ao abrir os olhos eram teus olhos
O meu corpo em teu abraço
(meu coração em tuas mãos)
Teu sorriso em minha mente
E num segundo dei-me conta
(Terias meu amor para sempre)
28.
Entretranto, entre tantos dissabores
As dores entrelaçamos
Entregamos os amores
Aos que ferem. Insanos somos
Cal que erguem estantes
Instantes que sustentam
Sustento dos velhos assentos
Trabalhadores atentos somos
Construimos dores ausentes
Perdidas no tempo e no espaço
Que o vento traz ao presente
Recente em nossos pensamentos
Pensamos em dor, construímos por nós, nossos
Amores
E do amor fez-se a dor
E da dor fez-se o amor
Leandro Canhete e Thaís Costella
As dores entrelaçamos
Entregamos os amores
Aos que ferem. Insanos somos
Cal que erguem estantes
Instantes que sustentam
Sustento dos velhos assentos
Trabalhadores atentos somos
Construimos dores ausentes
Perdidas no tempo e no espaço
Que o vento traz ao presente
Recente em nossos pensamentos
Pensamos em dor, construímos por nós, nossos
Amores
E do amor fez-se a dor
E da dor fez-se o amor
Leandro Canhete e Thaís Costella
27.
Fazia frio.
Tão frio que as janelas suavam e o encontro do ar dos meus pulmões com o gélido ar de fora tornava-me uma locomotiva em ação.
Locomotiva em alta velocidade, num passo apressado e cadente, o mesmo regendo meu peito na presença do calor de outra respiração: a sua.
Tão perto estava, que as fumaças misturavam-se tal que um expirava o ar do outro, e me inspirava aquele momento, a simples troca de ares e olhares me aquecia.
Fervia por dentro, meu coração ardendo como a lenha que consumia na lareira.
O fogo que via era o mesmo que não via.
...
Sentia (ser intenso)
.
Os olhares continuavam, mas o fogo cessava lentamente, não o de dentro (este nunca), o de fora.
Quando desviou os olhos, sentindo a falta do calor (que eu não sentia), levantou-se e soprou as brasas que pelo mesmo ar que me incandescia, voltaram a arder
Você voltou para mim e eu ardia muito mais que o fogo, agora que, de novo, seu ar respirava
Junto ao seu calor estava eu.
Foi nesse intervalo, doloroso intervalo que pensei que morreria e, naquele instante, com minha boca tão próxima a sua o ar enfim faltou-me (meu peito quase explodira)
Fez-me crer que entraria em combustão caso não lhe beijasse, ao menos a face
E foi do beijo, em seu toque macio e quente, que voltei à mim (voltada à você)
A locomotiva mais veloz que nunca dava voltas em meio às minhas entranhas e um arrepio percorreu-me por inteira.
Mas não foi o frio.
Foi o calor, seu calor que me fez derreter em seus braços e desejar que ao recompor-me a forma estivesse em fusão com seu corpo
(já que com sua alma minha alma assim já se encontrava)
Foi o frio.
Foi o fogo.
Foi o ar.
Foi o seu corpo.
Foi seu olhar.
Foi no seu beijo.
É você.
Serei eu.
Tão frio que as janelas suavam e o encontro do ar dos meus pulmões com o gélido ar de fora tornava-me uma locomotiva em ação.
Locomotiva em alta velocidade, num passo apressado e cadente, o mesmo regendo meu peito na presença do calor de outra respiração: a sua.
Tão perto estava, que as fumaças misturavam-se tal que um expirava o ar do outro, e me inspirava aquele momento, a simples troca de ares e olhares me aquecia.
Fervia por dentro, meu coração ardendo como a lenha que consumia na lareira.
O fogo que via era o mesmo que não via.
...
Sentia (ser intenso)
.
Os olhares continuavam, mas o fogo cessava lentamente, não o de dentro (este nunca), o de fora.
Quando desviou os olhos, sentindo a falta do calor (que eu não sentia), levantou-se e soprou as brasas que pelo mesmo ar que me incandescia, voltaram a arder
Você voltou para mim e eu ardia muito mais que o fogo, agora que, de novo, seu ar respirava
Junto ao seu calor estava eu.
Foi nesse intervalo, doloroso intervalo que pensei que morreria e, naquele instante, com minha boca tão próxima a sua o ar enfim faltou-me (meu peito quase explodira)
Fez-me crer que entraria em combustão caso não lhe beijasse, ao menos a face
E foi do beijo, em seu toque macio e quente, que voltei à mim (voltada à você)
A locomotiva mais veloz que nunca dava voltas em meio às minhas entranhas e um arrepio percorreu-me por inteira.
Mas não foi o frio.
Foi o calor, seu calor que me fez derreter em seus braços e desejar que ao recompor-me a forma estivesse em fusão com seu corpo
(já que com sua alma minha alma assim já se encontrava)
Foi o frio.
Foi o fogo.
Foi o ar.
Foi o seu corpo.
Foi seu olhar.
Foi no seu beijo.
É você.
Serei eu.
26.
Baile da saudade
Naquela valsa tocava meu peito contra o teu
Balanço bom na verdade, dançamos ao som de abafados gritos
À luz da madrugada, fui tua no baile
Bailamos freneticamente no ritmo suave da saudade
Naquela valsa tocava meu peito contra o teu
Balanço bom na verdade, dançamos ao som de abafados gritos
À luz da madrugada, fui tua no baile
Bailamos freneticamente no ritmo suave da saudade
25.
O que eu te disse,
Sobre o que sentia?
Ao despedir-me senti que morreria
Se não pudesse beijar-te outra vez
Acho que calei
Diante da agonia
O farol que em mim luzia
Apagou-se no desespero de perder-te
Me engolia
Aquela sensação incerta
Despertada por um beijo, teu beijo
O meu medo se escondia entre a segurança de teus lábios
Que é onde quero estar, apesar
De falhar as batidas em meu peito
De faltar meu ar, meu desejo
É estar sempre assim
E mais uma vez perder-te para encontrar
No outro dia o mesmo beijo
Num outro beijo o mesmo aperto
Aperto de quem ama esse jeito de amar
(perguntaste outro dia
o que em mim desperta poesia
e hoje digo ao maior responsável
que sem teus beijos palavra alguma fluiria)
Sobre o que sentia?
Ao despedir-me senti que morreria
Se não pudesse beijar-te outra vez
Acho que calei
Diante da agonia
O farol que em mim luzia
Apagou-se no desespero de perder-te
Me engolia
Aquela sensação incerta
Despertada por um beijo, teu beijo
O meu medo se escondia entre a segurança de teus lábios
Que é onde quero estar, apesar
De falhar as batidas em meu peito
De faltar meu ar, meu desejo
É estar sempre assim
E mais uma vez perder-te para encontrar
No outro dia o mesmo beijo
Num outro beijo o mesmo aperto
Aperto de quem ama esse jeito de amar
(perguntaste outro dia
o que em mim desperta poesia
e hoje digo ao maior responsável
que sem teus beijos palavra alguma fluiria)
24.
Entre os lençóis não somos nós, sou eu
Entre meus pés não estão os teus, os meus
Em meu alcance não há tua boca, há nada
Em minhas mãos não há teu corpo, só o meu
Leva-me pr'onde for agora
Sequestra-me em matéria, que minha alma já levaste há tempos
Esqueça o que me prende e o que te prende aqui
Sou livre em teus braços e tu pedes por mim
Pode vir e prometo não resistir
Ao menor dos sorrisos entrego-me a ti
No escuro que é a cidade a essa hora
Vamos embora
Rapta-me
Por uma noite perca a razão e me ame como se fosse a última
Vês, que não mais consigo
Não, nenhuma noite sem te ter
Dancemos agora
Na calada da nossa
Da nossa
madrugada
Entre meus pés não estão os teus, os meus
Em meu alcance não há tua boca, há nada
Em minhas mãos não há teu corpo, só o meu
Leva-me pr'onde for agora
Sequestra-me em matéria, que minha alma já levaste há tempos
Esqueça o que me prende e o que te prende aqui
Sou livre em teus braços e tu pedes por mim
Pode vir e prometo não resistir
Ao menor dos sorrisos entrego-me a ti
No escuro que é a cidade a essa hora
Vamos embora
Rapta-me
Por uma noite perca a razão e me ame como se fosse a última
Vês, que não mais consigo
Não, nenhuma noite sem te ter
Dancemos agora
Na calada da nossa
Da nossa
madrugada
23.
Distância, tempo pára, cala, dispara
No peito saudade, em verdade
Estou mesmo morrendo, sofrendo
Por não ter você comigo, sozinhos
Num quarto, no mato é fato
Que perco, me perco, me meto, me acho perdida
no tempo, que pára e cala
O grito de dentro
De dentro, sofrendo
Pra fora, lá fora me encontro agora
a procura, me escuta, o grito
calado no mato, no quarto
Distante o vento que sopra e não, ah...
me traz!
atrás de mim nada na frente
do lado ao meu lado
você
cadê?
A lua que gira, que gira
e eu caio, me diga onde
se encontra, me conta
onde você se encontra
como faz pra achar, te dar
um pouco de mim
Assim que não aguento, o vento
me leva pra ele, ó vento
Eu grito, e giro, e caio, e corro
Desespero, um alento, leve sopra o vento
Mais forte, quem sabe, na sorte
Eu vou
A lua, o sol, chegou
passou, mais dia e o vento!
no mato, no quarto
sopra vento!
a voz
não sai, não saiu
Não é grito
Não sopra, não leva, não levou
Não fui, não vou
com o vento.
tormento.
No peito saudade, em verdade
Estou mesmo morrendo, sofrendo
Por não ter você comigo, sozinhos
Num quarto, no mato é fato
Que perco, me perco, me meto, me acho perdida
no tempo, que pára e cala
O grito de dentro
De dentro, sofrendo
Pra fora, lá fora me encontro agora
a procura, me escuta, o grito
calado no mato, no quarto
Distante o vento que sopra e não, ah...
me traz!
atrás de mim nada na frente
do lado ao meu lado
você
cadê?
A lua que gira, que gira
e eu caio, me diga onde
se encontra, me conta
onde você se encontra
como faz pra achar, te dar
um pouco de mim
Assim que não aguento, o vento
me leva pra ele, ó vento
Eu grito, e giro, e caio, e corro
Desespero, um alento, leve sopra o vento
Mais forte, quem sabe, na sorte
Eu vou
A lua, o sol, chegou
passou, mais dia e o vento!
no mato, no quarto
sopra vento!
a voz
não sai, não saiu
Não é grito
Não sopra, não leva, não levou
Não fui, não vou
com o vento.
tormento.
22.
Cada segundo inexiste, dessa tortura crua que outros chamam de
Saúdo o tempo que passa, quando passa, pois demora a me deixar, seria o último suspiro de?
E por quanto mais eu terei de sentir, esse anseio, essa
Transito entre débeis sussuros, entre suaves toques, entre singelos olhares e me vem a
Não me resta recorrer a ajuda, não me resta nada, preciso de tu para me livrar da
Festejo em meio à companhia solitária de tuas palavras, ah
Sinto, sim, sinto a cada dia que vai, que não vai, e cada lembrança tua afoga-me mais e mais em
Ao lembrar-me, posso tudo menos tocar-te, ou beijar-te, sinto
Pressinto perder a razão
Mas não te sinto.
Saudade.
Saúdo o tempo que passa, quando passa, pois demora a me deixar, seria o último suspiro de?
E por quanto mais eu terei de sentir, esse anseio, essa
Transito entre débeis sussuros, entre suaves toques, entre singelos olhares e me vem a
Não me resta recorrer a ajuda, não me resta nada, preciso de tu para me livrar da
Festejo em meio à companhia solitária de tuas palavras, ah
Sinto, sim, sinto a cada dia que vai, que não vai, e cada lembrança tua afoga-me mais e mais em
Ao lembrar-me, posso tudo menos tocar-te, ou beijar-te, sinto
Pressinto perder a razão
Mas não te sinto.
Saudade.
21.
faz-me querer.
ser.
quero tu
quero te ter
quero me ver
em ti
pra si,
pra, sim,
simplesmente
guardar-me em teu peito
em que me deito
me deleito
meu delírio
meus suspiros
resguardam fome
de teus beijos
arrepio
faz-me bem
bem querer
faz-me querer.
ser.
quero tu
quero te ter
quero me ver
em ti
pra si,
pra, sim,
simplesmente
guardar-me em teu peito
em que me deito
me deleito
meu delírio
meus suspiros
resguardam fome
de teus beijos
arrepio
faz-me bem
bem querer
faz-me querer.
20.
É no silêncio que reecontro sua voz
E me conforto em saber do seu afeto discreto
Secreto. Um segredo que não guardo pra mim
Pra você, digo assim: te quero
Não é novo, não é velho, amor
Aquele sentimento que veio contra minha vontade
Quando vi, já foi, você veio, e olhou
Me encanta, encantou
Quero toda manhã, se quero
me ver fraca diante de um sorriso
Seu sorriso, que ilumina meu dia antes do sol
que me ilumina
Quero todas as tardes um beijo
Que me alimenta e sacia meu desejo de, você
que me fascina e conquista a cada dia
A cada dia
E a noite, dormir com seu cheiro, seu braço
Toda noite, que de sonhos não precisarão mais
Sonhar do seu lado, ver meu amor dormir
E acordar
Pra mais um dia, e mais outro, e mais outro.
E me conforto em saber do seu afeto discreto
Secreto. Um segredo que não guardo pra mim
Pra você, digo assim: te quero
Não é novo, não é velho, amor
Aquele sentimento que veio contra minha vontade
Quando vi, já foi, você veio, e olhou
Me encanta, encantou
Quero toda manhã, se quero
me ver fraca diante de um sorriso
Seu sorriso, que ilumina meu dia antes do sol
que me ilumina
Quero todas as tardes um beijo
Que me alimenta e sacia meu desejo de, você
que me fascina e conquista a cada dia
A cada dia
E a noite, dormir com seu cheiro, seu braço
Toda noite, que de sonhos não precisarão mais
Sonhar do seu lado, ver meu amor dormir
E acordar
Pra mais um dia, e mais outro, e mais outro.
19.
Em minha boca tua boca fala
Na minha pele, teu sopro arrepia
Sem teu sorriso não sei o que faria
Tua presença e meu peito dispara
Diz-me nos beijos sou mulher p'ra sempre
Prende no abraço minha expiração
Me inspira, respiro, suspiro e(m) vão (?)
-se longe as lembranças em minha mente
Querer-te ao meu lado é querer o mundo?
Se meu mundo é tu, quero sim. Quero a ti
É só o que preciso, não é muito e é tudo
Sou só, sem ti, sufoco sem teu ar
Delírio são, perco-me ao olhar, amor
E é sempre perdida que quero estar.
Na minha pele, teu sopro arrepia
Sem teu sorriso não sei o que faria
Tua presença e meu peito dispara
Diz-me nos beijos sou mulher p'ra sempre
Prende no abraço minha expiração
Me inspira, respiro, suspiro e(m) vão (?)
-se longe as lembranças em minha mente
Querer-te ao meu lado é querer o mundo?
Se meu mundo é tu, quero sim. Quero a ti
É só o que preciso, não é muito e é tudo
Sou só, sem ti, sufoco sem teu ar
Delírio são, perco-me ao olhar, amor
E é sempre perdida que quero estar.
18.
Sofro
Agora tudo é em torno de ti
Esqueço
O necessário para me manter
Penso
A cada segundo, na tua presença
Sinto
A cada poro, teu sopro gentil
Falo
Mas é difícil, quero me calar
Tento
Me enlouqueces, tenho que dizer
O quanto...
Quando te tenho quero nada mais
Mas
Se tu souber não vai me perdoar
Preciso
De teu calor só para me manter
Ouço
Qualquer palavra pra me convencer
Perco
O eixo a cada sorriso que dás
Tenho
A obrigação de revelar o que...
por ti...
É amor.
Perdoa-me,
Amo demais pra não dizer.
Agora tudo é em torno de ti
Esqueço
O necessário para me manter
Penso
A cada segundo, na tua presença
Sinto
A cada poro, teu sopro gentil
Falo
Mas é difícil, quero me calar
Tento
Me enlouqueces, tenho que dizer
O quanto...
Quando te tenho quero nada mais
Mas
Se tu souber não vai me perdoar
Preciso
De teu calor só para me manter
Ouço
Qualquer palavra pra me convencer
Perco
O eixo a cada sorriso que dás
Tenho
A obrigação de revelar o que...
por ti...
É amor.
Perdoa-me,
Amo demais pra não dizer.
16.
Novamente a noite vira, e o silêncio que perturba a alma calada dos ouvintes, parece maior hoje. A angústia de uma solidão farta de comigos. Eu, mais um de mim, e outro deste, todos juntos. Sozinhos. Gritos mudos, insólitos e incessantes, que desnudam o mais simples prazer da presença de algo. Há somente a presença de nada.
E por horas, ou dias, ou meses, o tempo não passa nesse pararelo escuro e doentio. Tapo os ouvidos, que é para ver se adianta abafar o silêncio de fora, para ouvir algo de dentro. Mas dentro, os eus calados, sofridos, em constante decomposição de essência. O espírito dorme, os impulsos são desviados, e nada responde. Nada responde ao chamado, meu chamado.
Preciso de algo, alguém, resposta.
Rodeada por desconhecidos eus sem voz. Só.
Só.
E por horas, ou dias, ou meses, o tempo não passa nesse pararelo escuro e doentio. Tapo os ouvidos, que é para ver se adianta abafar o silêncio de fora, para ouvir algo de dentro. Mas dentro, os eus calados, sofridos, em constante decomposição de essência. O espírito dorme, os impulsos são desviados, e nada responde. Nada responde ao chamado, meu chamado.
Preciso de algo, alguém, resposta.
Rodeada por desconhecidos eus sem voz. Só.
Só.
15.
Mamãe, ontem vi um pássaro cantar, mas de seu bico som algum saía.
Lembrei do dia em que apresentou-me o mar, eu só sorria.
Vai ver foi igual, ficou o pobre sem cantar, pasmo de tanta alegria.
E aquela flor, que demorava para desabrochar,
Lembrou-me o dia em que a casa, o teu colo, fui deixar.
Não desabrochou a flor, para que no campo, longe da estufa, não pudesse ficar.
E certa vez, quando a noite não escurecia,
Me veio à cabeça os teus abraços, ganhados toda vez que algo eu perdia
Porque mãe, quando sou eu, quando é para mim, é sempre assim:
Pra ti, todo dia é dia.
Lembrei do dia em que apresentou-me o mar, eu só sorria.
Vai ver foi igual, ficou o pobre sem cantar, pasmo de tanta alegria.
E aquela flor, que demorava para desabrochar,
Lembrou-me o dia em que a casa, o teu colo, fui deixar.
Não desabrochou a flor, para que no campo, longe da estufa, não pudesse ficar.
E certa vez, quando a noite não escurecia,
Me veio à cabeça os teus abraços, ganhados toda vez que algo eu perdia
Porque mãe, quando sou eu, quando é para mim, é sempre assim:
Pra ti, todo dia é dia.
14.
Mistura a desculpa e vem servir-me,
Desse pote cheio de mentiras comerei
De seu conteúdo faço vitamina ao meu ser
Comerei, como um rei.
Satisfaz-me
Hei de ter, maior prazer,
Ao saber que desse pote já comeram outros,
E que de todos quem sobreviveu foi ninguém
Alimentados com seu ódio mortífero.
Sobreviverei
Em meu estômago perpassam as injúrias
Lentamente digeridas pela indiferença
de um ser que engole sapos, lagartos, sofrimentos. Mais um.
Aperitivo
De suas mágoas meu sustento,
De suas palavras, refeição;
Seus sentimentos por mim, no fim,
Defecados
Assim. Ah, sim.
Desse pote cheio de mentiras comerei
De seu conteúdo faço vitamina ao meu ser
Comerei, como um rei.
Satisfaz-me
Hei de ter, maior prazer,
Ao saber que desse pote já comeram outros,
E que de todos quem sobreviveu foi ninguém
Alimentados com seu ódio mortífero.
Sobreviverei
Em meu estômago perpassam as injúrias
Lentamente digeridas pela indiferença
de um ser que engole sapos, lagartos, sofrimentos. Mais um.
Aperitivo
De suas mágoas meu sustento,
De suas palavras, refeição;
Seus sentimentos por mim, no fim,
Defecados
Assim. Ah, sim.
13.
"Rezo todos os dias pra esquecer de um dia em especial."
"Eu rezo porque dizem que ajuda."
"E ajuda?"
"Está melhorando o seu esquecimento?"
"Não. Fez-me lembrar agora."
"Então não. Não ajuda."
"Vai continuar rezando mesmo assim?"
"Você vai?"
"Vou."
"Então porque eu não deveria?"
"Porque não ajuda."
"Mesmo assim o faz"
"Sim. Todos fazem."
(...)
"Pai Nosso, que estás no céu..."
"Santificado seja o Vosso nome..."
"Eu rezo porque dizem que ajuda."
"E ajuda?"
"Está melhorando o seu esquecimento?"
"Não. Fez-me lembrar agora."
"Então não. Não ajuda."
"Vai continuar rezando mesmo assim?"
"Você vai?"
"Vou."
"Então porque eu não deveria?"
"Porque não ajuda."
"Mesmo assim o faz"
"Sim. Todos fazem."
(...)
"Pai Nosso, que estás no céu..."
"Santificado seja o Vosso nome..."
12.
"Pra onde você vai?"
"Pra lá... não sei, pra cá. Pensar... ah, me deixa um pouco."
"E quantos tomou hoje?"
"Nenhum."
"Por isso."
"Não é, não preciso."
"Então por que a agonia? O buraco que tá abrindo no chão é algo..."
(estrondo da porta, segundos e ela se abre de novo)
"E antes que eu vá, vá você pra puta que te pariu!"
Fui mesmo até minha mãe, não que ela seja puta, nem sei, apenas me pariu.
"E foi, assim. Bem, digamos, irritada."
"E depois de quê? Discussões? Uma briga?"
"Eu disse que a amava. Como se reage a isso?"
"Assim mesmo."
"Não foi isso o que imaginei."
"Sabe, (deu-me um chá, sabe que adoro chá.) é mais dificil ouvir a palavra amor, do que falar. É tão indigesto quanto uma broa de milho com pimenta e páprica, ao café-da-manhã"
"Devia eu ter dito aquilo à noite?"
"Devias tu dar a ela um belo chá de boldo. É bom. Pra digerir."
Voltei. Não mais de dez minutos depois ela estava de volta. A chave virou e produziu o barulho característico de destrave. Ela entrou, sentou à mesa. Segurava um lenço. Apenas me olhou. Eu me afastei e cheguei perto do fogão, pus a água a ferver.
Demorou. Uns três minutos e a água borbulhava. Era a hora, ia dizer:
"Quer chá?"
Ela sorriu. Bebeu ao mesmo tempo que me fitava. Apenas um obrigada. O melhor obrigada possível.
Acho que deu certo.
O chá de boldo.
"Pra lá... não sei, pra cá. Pensar... ah, me deixa um pouco."
"E quantos tomou hoje?"
"Nenhum."
"Por isso."
"Não é, não preciso."
"Então por que a agonia? O buraco que tá abrindo no chão é algo..."
(estrondo da porta, segundos e ela se abre de novo)
"E antes que eu vá, vá você pra puta que te pariu!"
Fui mesmo até minha mãe, não que ela seja puta, nem sei, apenas me pariu.
"E foi, assim. Bem, digamos, irritada."
"E depois de quê? Discussões? Uma briga?"
"Eu disse que a amava. Como se reage a isso?"
"Assim mesmo."
"Não foi isso o que imaginei."
"Sabe, (deu-me um chá, sabe que adoro chá.) é mais dificil ouvir a palavra amor, do que falar. É tão indigesto quanto uma broa de milho com pimenta e páprica, ao café-da-manhã"
"Devia eu ter dito aquilo à noite?"
"Devias tu dar a ela um belo chá de boldo. É bom. Pra digerir."
Voltei. Não mais de dez minutos depois ela estava de volta. A chave virou e produziu o barulho característico de destrave. Ela entrou, sentou à mesa. Segurava um lenço. Apenas me olhou. Eu me afastei e cheguei perto do fogão, pus a água a ferver.
Demorou. Uns três minutos e a água borbulhava. Era a hora, ia dizer:
"Quer chá?"
Ela sorriu. Bebeu ao mesmo tempo que me fitava. Apenas um obrigada. O melhor obrigada possível.
Acho que deu certo.
O chá de boldo.
10.
......H umanidade que não temos.
......U niaxial,
......M ortal.
......A bnegativa,
......N ugativa.
......I rracionalmente
......D anífica,
......A típica.
......D issipável como a minha...
(...)E sperança?
......U niaxial,
......M ortal.
......A bnegativa,
......N ugativa.
......I rracionalmente
......D anífica,
......A típica.
......D issipável como a minha...
(...)E sperança?
9.
T odos,
O brigados.
D efinidos.
O uvimos o que
S eguir.
S eguimos
O que
M andam.
O que
S ugerem.
I guais na
G anância.
U tópicos.
A lheios.
I gualmente
S olitários.
P erante a
E státuas
R obustas somos todos:
A rbustos.
N ão
T emos
E uforia.
À mamos aquilo que não se ama.
L ei
E stúpida e
I nútil.
O brigados.
D efinidos.
O uvimos o que
S eguir.
S eguimos
O que
M andam.
O que
S ugerem.
I guais na
G anância.
U tópicos.
A lheios.
I gualmente
S olitários.
P erante a
E státuas
R obustas somos todos:
A rbustos.
N ão
T emos
E uforia.
À mamos aquilo que não se ama.
L ei
E stúpida e
I nútil.
8.
Turbulência de idéias, vagas teorias e explicações... trovão
Cai a chuva, cai a razão.Vem da emoção, essa sensação
De que perdi o teto e perdi o chão. Trovão
Corre a esperança nas gotas turvas de uma chuva de verão.
Abro os braços, língua afora procurando a salvação.
Aos céus recorro esquecendo crença, ideologia, dogma, rotulação.
Me leva agora. Me lava agora!
Chuva vem, vem, vem trazer. Trovão!
Raios que iluminam minha história.
Aos poucos molha, aos poucos chora, minhas mágoas a chuva leva
Grita mais! E mais! Trovão! Faz milagre, me põe no chão!
No chão da vida, no chão que é a razão.
E assim, trouxe-me de volta, eu, que estava perdida, em meio a
Cai a chuva, cai a razão.Vem da emoção, essa sensação
De que perdi o teto e perdi o chão. Trovão
Corre a esperança nas gotas turvas de uma chuva de verão.
Abro os braços, língua afora procurando a salvação.
Aos céus recorro esquecendo crença, ideologia, dogma, rotulação.
Me leva agora. Me lava agora!
Chuva vem, vem, vem trazer. Trovão!
Raios que iluminam minha história.
Aos poucos molha, aos poucos chora, minhas mágoas a chuva leva
embora.
Traz no vento, água na face pra lavar a alma.Grita mais! E mais! Trovão! Faz milagre, me põe no chão!
No chão da vida, no chão que é a razão.
E assim, trouxe-me de volta, eu, que estava perdida, em meio a
.chuva de verão.
7.
Alguém falou-me de mudança
Vi lagartas e borboletas
Filhotes e adultos,
Vi pescador colhendo frutos
E o escuro iluminando
Vi sombra discordando
Vi o tempo parando
Eu vi
Vi tudo, vivi
Ouvi
Música sem som
Tato sem contato
Concreto e abstrato
Que são
Agora
Irmãos
Pais-irmãos, vi também
Cores, ah, as cores!
De um mundo que muda
Muda, cega e surda
É o que sou
Diante daquilo que fui.
Metamorfose constante
De uma vida de Fases e sabes
Tu
O quanto é duro
Puro
Pular. O muro.
Pulei
Cantei
Amei
Sonhei, de novo.
Novamente,
Mudei.
Vi lagartas e borboletas
Filhotes e adultos,
Vi pescador colhendo frutos
E o escuro iluminando
Vi sombra discordando
Vi o tempo parando
Eu vi
Vi tudo, vivi
Ouvi
Música sem som
Tato sem contato
Concreto e abstrato
Que são
Agora
Irmãos
Pais-irmãos, vi também
Cores, ah, as cores!
De um mundo que muda
Muda, cega e surda
É o que sou
Diante daquilo que fui.
Metamorfose constante
De uma vida de Fases e sabes
Tu
O quanto é duro
Puro
Pular. O muro.
Pulei
Cantei
Amei
Sonhei, de novo.
Novamente,
Mudei.
6.
(num grito) Distância!
(num sussuro) Por quê?
(num lamento) Eu sei...
(por dentro) morrendo.
Tão perto. Tão certo. Tão longe.
(um olhar) ... (silêncio)
Um...
Beijo?
(um adeus) Vai! Pra vida!
(uma promessa) voltarei.
(um suspiro) te quero.
(um abraço) ... (silêncio)
Já foi.
Te espero.
(num sussuro) Por quê?
(num lamento) Eu sei...
(por dentro) morrendo.
Tão perto. Tão certo. Tão longe.
(um olhar) ... (silêncio)
Um...
Beijo?
(um adeus) Vai! Pra vida!
(uma promessa) voltarei.
(um suspiro) te quero.
(um abraço) ... (silêncio)
Já foi.
Te espero.
5.
Estás olhando para lá,
Mas nada tens a fitar.
Esse nada é tua visão?
Para o nada estás a olhar?
Daria tudo para ser o nada
Esse nada que tu olhas.
E se eu fosse o nada?
Nada irias querer de mim?
Sendo assim, nada tenho até o fim.
Agora possuis o nada.
O que? nada farás?
Nada de resposta. Nada, de resposta.
Eu entendo. Não digas nada.
Tens tudo o que quer e eu,
tudo que tenho é nada.
Mas nada tens a fitar.
Esse nada é tua visão?
Para o nada estás a olhar?
Daria tudo para ser o nada
Esse nada que tu olhas.
E se eu fosse o nada?
Nada irias querer de mim?
Sendo assim, nada tenho até o fim.
Agora possuis o nada.
O que? nada farás?
Nada de resposta. Nada, de resposta.
Eu entendo. Não digas nada.
Tens tudo o que quer e eu,
tudo que tenho é nada.
4.
Todas as cartas de amor são
Magníficas
Não seriam cartas de amor se não fossem
Magníficas
Também escrevi muitas cartas de amor,
Como as outras,
Magníficas.
As cartas de amor, por terem amor,
São assim,
Magníficas
E, afinal
Apenas aqueles que escreveram as
Cartas de amor
É que são
Magníficos
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Magníficas
Por pensar assim
É que sinto em discordar
Do meu grande mestre
Magnífico
(Todas as palavras, perfeitas
Como os sentimentos, perfeitos
São naturalmente
Magníficos)
Perdoe-me Pessoa, mas as cartas de amor são tudo, menos ridículas.
Magníficas
Não seriam cartas de amor se não fossem
Magníficas
Também escrevi muitas cartas de amor,
Como as outras,
Magníficas.
As cartas de amor, por terem amor,
São assim,
Magníficas
E, afinal
Apenas aqueles que escreveram as
Cartas de amor
É que são
Magníficos
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Magníficas
Por pensar assim
É que sinto em discordar
Do meu grande mestre
Magnífico
(Todas as palavras, perfeitas
Como os sentimentos, perfeitos
São naturalmente
Magníficos)
Perdoe-me Pessoa, mas as cartas de amor são tudo, menos ridículas.
3.
.....................................sem rumo.
.......................sozinho
..............sobe
O balão
Sobe a um infinito. Escuro.
.............................................só sobe.
.............................se volta,
..........e não sabe
Sobe
E assim vai indo. Pro escuro.
...................................sem rumo.
......................sozinho
......................................................
Sobe
.......................................................o
...........................perde ......................p
Segue o vento......................................r
.................................................................u
Encontra o vácuo no alto. .......................m
........................................................................o
............e
...s
....................t
.........o
................u
...........................r
...............................a!
Sumiu.
no escuro.
Pedaços...........................que foi sozinho.
.....................do balão
Subiu
.......................................................................prumo.
.............sumiu ..............rumo
.............................sem ...................nem
Rumou ao infinito.
Perdeu-se.
No escuro.
.......................sozinho
..............sobe
O balão
Sobe a um infinito. Escuro.
.............................................só sobe.
.............................se volta,
..........e não sabe
Sobe
E assim vai indo. Pro escuro.
...................................sem rumo.
......................sozinho
......................................................
Sobe
.......................................................o
...........................perde ......................p
Segue o vento......................................r
.................................................................u
Encontra o vácuo no alto. .......................m
........................................................................o
............e
...s
....................t
.........o
................u
...........................r
...............................a!
Sumiu.
no escuro.
Pedaços...........................que foi sozinho.
.....................do balão
Subiu
.......................................................................prumo.
.............sumiu ..............rumo
.............................sem ...................nem
Rumou ao infinito.
Perdeu-se.
No escuro.
2.
.
.
.
Pensamentos.
Pensamentos que voltam
Me doem
Minh’alma lamenta
Pensamentos.
Pensamentos que assolam
Corroem
Minh’alma chora.
Pensamentos.
Lembranças que acordam
Consolam
Minh’alma grita!
Pensamentos.
Tempo que passa
Saudade
Minh’alma pede: Você.
Pensamentos.
.
.
.
.
.
Pensamentos.
Pensamentos que voltam
Me doem
Minh’alma lamenta
Pensamentos.
Pensamentos que assolam
Corroem
Minh’alma chora.
Pensamentos.
Lembranças que acordam
Consolam
Minh’alma grita!
Pensamentos.
Tempo que passa
Saudade
Minh’alma pede: Você.
Pensamentos.
.
.
.
1.
Ela ofereceu-lhe um cigarro.
"obrigado
estou parando"
Ele ofereceu-lhe uma bebida.
"obrigada
ainda bebo"
Por horas
Oras
Monólogos, oras
Diálogos.
Silêncio.
Olhares.
"E a vida,
respostas?"
"Perguntas."
"O bom da vida"
Mais bebida.
Mais perguntas.
"E agora? Café?"
"Tá cedo."
"Mais uma?"
"Tá tarde."
Silêncio,
um beijo. Roubado.
Dele.
Não, dela.
Não. Não.
Olhares, e beijos.
Abraços.
Mais beijos.
"Quer subir?"
(a perguta
finalmente)
"Obigado. Não é
Só
De uma noite"
"Todas?"
"Quem sabe."
Agora
de novo.
Roubo.
Dele.
Um beijo, um adeus, uma noite.
Uma não. Uma não.
Uma.
Noite.
"obrigado
estou parando"
Ele ofereceu-lhe uma bebida.
"obrigada
ainda bebo"
Por horas
Oras
Monólogos, oras
Diálogos.
Silêncio.
Olhares.
"E a vida,
respostas?"
"Perguntas."
"O bom da vida"
Mais bebida.
Mais perguntas.
"E agora? Café?"
"Tá cedo."
"Mais uma?"
"Tá tarde."
Silêncio,
um beijo. Roubado.
Dele.
Não, dela.
Não. Não.
Olhares, e beijos.
Abraços.
Mais beijos.
"Quer subir?"
(a perguta
finalmente)
"Obigado. Não é
Só
De uma noite"
"Todas?"
"Quem sabe."
Agora
de novo.
Roubo.
Dele.
Um beijo, um adeus, uma noite.
Uma não. Uma não.
Uma.
Noite.
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