35.

Qualquer tentativa de se definir e de descrever o funcionamento da Estética de um modo racional e linear será uma visão meramente técnica, fria, superficial e unilateral do que realmente se deve levar em conta a respeito do assunto. É preciso a observação e, acima de tudo, a experimentação de faces complementares e múltiplas, que paradoxalmente compõe uma realidade única. É a essa experimentação que deram, por convenção, o nome de arte e a estética seria uma forma conjunta da arte e da ação humana que permite caracterizar algo como belo e feio, por exemplo. Para Kant, essa caracterização é individual e não depende do objeto. De fato a arte é uma livre representação a partir de universos pessoais. É exclusivo do indivíduo o comportamento emocional gerado a partir dessa experimentação, guiada pelos sentidos. Cito Nietzsche para tal: “O ser próprio procura também com os olhos do sentido e escuta com os ouvidos do espírito”.

Enquanto a arte é uma criação que simula a realidade, e enquanto o artista não se apropria de uma mensagem específica e de um objetivo direcionado e manipulador, esta pode ser interpretada livremente e individualmente. Cabe ao ser, de acordo com o resultado de sua experimentação da obra, a classificação de sua importância. Importância, porque não se deve classificar algo como belo e feio. Esses conceitos racionais e concretos, antagônicos em existência perturbam uma visão, da qual compartilho, na qual tudo que se choca, se sustenta, simultaneamente. A dialética dessa visão e a convivência necessária de opostos na realidade, devem estar presentes na arte, sendo que esta trata da representação do real. É nesse sentido da não-definição que, quando o artista toma a arte como meio vendável de massificação, ela deixa de ser arte e passa a ser cultura de massa.

Não se pode direcionar essa experimentação como se direciona rebanhos, e no século XX, essa cultura fabricada tem por fim criar gostos universais, padrões, homogenizar e assim, quebrar com o (se assim pode se chamar) conceito de arte. A televisão é um meio manipulador assim como o rádio ou o cinema, que transmitem seus produtos para a massa, esta que quanto mais “livre” e inserida numa sociedade mais democrática, mais fácil de ser atingida.

A indústria cultural cria valores estéticos e padrões que são constantementes lançados e seguidos cegamente com uma roupagem de arte, mas que na verdade não possuem nem sua essência, que dirá seu nome.

A essência da arte, se é que há uma, não dá forma a vida, não estabelece padrões, não é universal, não é bela nem feia. Não se pode defini-la se levarmos em conta que sua verdadeira essência é a importância individual e indescritível de experimentação da vida real. A essência da arte é a própria arte. Cada um a vê de um jeito porque vive de um jeito, e se há o espaço para essas infinitas visões, há um espaço infinito para diferentes formas de belo, de arte e de estética.

Um comentário:

  1. " Qualquer tentativa de se definir e de descrever o funcionamento da Estética de um modo racional e linear será uma visão meramente técnica, fria, superficial e unilateral do que realmente se deve levar em conta a respeito do assunto. É preciso a observação e, acima de tudo, a experimentação de faces complementares e múltiplas, que paradoxalmente compõe uma realidade única. "

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